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INCONTINÊNCIA URINÁRIA

A incontinência urinária ou anal pode ser descrita como uma condição patológica. No entanto, a International Continence Society vai mais longe na sua definição, afirmando que, para além de ser um problema de saúde e de higiene, a perda de urina ou fezes é uma situação com repercussões a nível social e pessoal.

A incontinência urinária, sobretudo na mulher, é um grave problema cultural. Como a mãe e a avó também sofreram da mesma doença, assume-se a incontinência urinária como uma herança. O factor familiar expõe a ideia de que é algo natural e, por isso, deve ser suportado pois “não há nada a fazer”. Desta forma, a mulher vai adiando a solução e tenta adaptar o seu dia-a-dia até ao ponto em que começa a estar condicionada por esta situação.

Como se trata de um assunto íntimo, a incontinência urinária ainda é encarada como um tabu que condiciona o dia-a-dia a vários níveis: pessoal, familiar, social e profissional. Este problema pode conduzir ao isolamento pois está sempre presente o medo e a vergonha de que os outros sintam o cheiro. Pode afectar também a relação conjugal, uma vez que a intimidade do casal é prejudicada.

Da mesma maneira falamos da incontinência fecal (mais comum nos homens) ou da disfunção sexual, assuntos que advêm de uma disfunção dos músculos do pavimento pélvico.

Quem tem risco acrescido de sofrer de fraqueza do pavimento pélvico e consequentemente incontinência urinária?

1. Indivíduos com alterações do sistema nervoso central

2. Mulheres:
Muito embora a incontinência urinária seja transversal a ambos os sexos e a todas as idades, o grupo de mulheres em fase activa – entre os 45 e os 65 anos – é aquele onde o problema assume um carácter mais marcante. Em termos comparativos, nestas faixas etárias, por cada três mulheres existe um homem afectado pela doença;

Grávidas ou mães recentes;
– Cerca de 65% deste grupo têm queixas de perda de urina.
– A causa da incontinência durante a gravidez é totalmente clara:
O efeito das hormonas no músculo liso (relaxina);
O peso do bebé alonga e força a musculatura.
– Maior tendência para danificar ou comprimir o nervo pélvico.
– O parto vaginal pode causar danos no períneo e nas estruturas de suporte (++ nos partos com fórceps/ventosas, em que são realizadas episiotomias e nascimento de bebés com peso superior a 4Kg)

Não é por estar grávida que é normal ter incontinência, se há sinais ou sintomas não pense que irão passar depois do parto, tome logo as devidas precauções e combata a incontinência urinária!

Mulheres na menopausa ou mulheres idosas, particularmente se sedentárias;
– Muitas mulheres desconhecem os factores que enfraquecem os seus MPP até atingirem a menopausa, ou seja, é nesta altura em que os níveis de estrogénio baixam drasticamente e a ligeira fraqueza dos MPP que as acompanhou toda a vida aumenta na mesma proporção da diminuição do estrogénio. É nesta altura que se apercebem dos factores que levaram à situação: sedentarismo, negligência de pequenos sinais, profissões de risco acrescido (onde realizaram grandes esforços), entre outros.
– Há medida que envelhecemos, os nossos músculos diminuem o seu tamanho e força. Isto pode resultar em fraqueza dos MPP se estes forem ignorados.

Nota: O estrogénio contribui para um aumento do fluxo sanguíneo o qual melhora a contracção muscular promovendo a continência.

Mulheres jovens em fase activa de vida;
– Estilos de vida que obrigam à realização de esforços físicos frequentes (por exemplo atletas);
– Estilos de vida sedentários;
– Mulheres que trabalham muito activamente.

Mulheres que foram submetidas a cirurgia ginecológica;
– A remoção dos ovários resulta na redução da produção de estrogénio, resultando em sintomas semelhantes aos da menopausa.
– Na ausência de tratamentos hormonais, a perda do controlo da bexiga instalar-se-á directamente após histerectomia ou ovariectomia.
– Poderá eventualmente ter havido interacção com algum nervo.

Mulheres com excesso de peso;
– Os casos de mulheres que perdem urina aumentam com o aumento do seu peso. Cada Kg a mais representa uma carga extra às estruturas do pavimento pélvico (músculos, tecidos, ligamentos..). Por vezes, uma ligeira perda de peso resulta numa menor perda de urina.

3. Indivíduos com tosse crónica ou estados febris, ou obstipação crónica
– Pressões exercidas permanentemente no pavimento pélvico como por exemplo, o tossir ou fazer força excessiva sempre que faz cocó, podem alongar e danificar os músculos.

4. Indivíduos com maus hábitos posturais
– Devido a alterações posturais mantidas por um longo período de tempo poderá surgir alongamento dos MPP e estruturas envolventes, tais como o nervo pélvico.
– Os MPP menos activos em posturas não suportadas ou em posição de “slump”

Não somos só nós, mulheres cuja vida social não está exposta, que poderão sofrer deste tipo de problemas. A instalação de uma má postura “hoje” poderá ser o início de uma incontinência urinária “amanha”!

5. Indivíduos com maus hábitos de vida
– Negligência da higiene pessoal, alterações na alimentação e na hidratação, entre outros.
– Indivíduos que aguentam muito tempo com a bexiga cheia estão constantemente a solicitar o músculo liso que forra as paredes da bexiga e evita a micção (fazer xixi). Se esta atitude for mantida frequentemente e durante longos períodos de tempo os esfíncteres internos entram em fadiga e poderá ser esta a causa da sua incontinência.

6. Tabagismo
– Danos causados pela tosse crónica;
– Alterações na síntese e na qualidade do colagénio;
– A nicotina do cigarro estimula contracções do músculo da bexiga;
– O tabaco tem efeitos anti-estrogénio que diminuem a actividade do músculo liso (interno).

Conhecer os tipos de incontinência

1. Incontinência de esforço
Prevalecente em mulheres entre os 45 e 65 anos e decorre da fraqueza dos músculos pélvicos que suportam a bexiga e a uretra.

No sexo feminino a probabilidade é maior devido aos factores acima referidos.

Nos homens este problema pode derivar da prostatectomia radical (utilizado para tratamento do cancro da próstata). Como a próstata se encontra numa situação anatómica crítica (entre a bexiga e o esfíncter), a cirurgia pode danificar o esfíncter, provocando uma situação de incontinência de esforço.

Em circunstâncias de maior esforço, como tossir, saltar, correr, espirrar e levantar pesos, a pressão abdominal aumenta e o esfíncter (válvula responsável pela retenção da urina na bexiga) perde a força e deixa escapar a urina.

Sinais e Sintomas verificados:
– Aumento da frequência urinária (mais que 6 vezes por dia, 2 vezes durante a noite)
– Sensação de que não houve esvaziamento total da bexiga.
– Gotejamento pós-miccional (continuam a sair pinguinhas após urinar)

2. Incontinência de Urgência
No segundo caso a incontinência urinária de urgência, como o próprio nome indica, é a perda involuntária de urina que ocorre sem nenhuma razão aparente resultante de uma vontade súbita e incontrolável de urinar. Profissionais médicos descrevem-na como uma bexiga “instável”, “espástica”, ou “hiperactiva”.

Este tipo de incontinência pode estar relacionado com o envelhecimento e o avanço da idade, mas também surge em idades mais jovens, associado a doenças neurológicas, stress ou ansiedade. Causas mais comuns de incontinência de urgência são contracções involuntárias e inadequadas do músculo detrusor (grande músculo liso da bexiga) causadas por uma hiperactividade do sistema nervoso central.

Estas acções involuntárias dos músculos da bexiga podem ocorrer devido a:
– Ansiedade e stress;
– Infecção, inflamação ou irritação da bexiga;
– Danos nos nervos da bexiga (no sentido ascendente, em direcção ao cérebro ou descendente, para os próprios músculos);
– Esclerose múltipla;
– Doença de Parkinson;
– Doença de Alzheimer;
– Acidente vascular cerebral e lesões;
– Lesões que ocorrem durante uma cirurgia e que podem prejudicar os nervos ou músculos da bexiga.

Sinais e sintomas verificados:
– Urgência repentina para chegar a uma casa de banho.
– O quadro de urgência é uma situação dramática, na medida em que condiciona o dia-a-dia das pessoas. Há doentes que se mantêm sempre atentos ao local onde há uma casa de banho e outros que, devido à aflição, traçam um roteiro das casas de banho por onde vão passar.
– Incontinência durante o sono (após beber uma pequena quantidade de água, ou ouvir o barulho da água).
– Associação de rotinas à necessidade de urinar (por exemplo: colocar as chaves na porta de casa leva a uma vontade súbita de urinar)

3. Incontinência mista
Resulta da combinação destas duas situações.

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico da incontinência urinária tem início no historial clínico do doente, que descreve em que condições sofre perdas de urina. Para que se possa optar pelo tratamento mais adequado tem de se fazer um diagnóstico assertivo dos mecanismos e circunstâncias que promovem a incontinência urinária.

Após a caracterização dos sintomas, seguem-se os exames complementares de diagnóstico. Estes poderão passar por um estudo uro-dinâmico, ecografia, análises gerais e uma citologia urinária. A possibilidade de realizar estes exames está perfeitamente ao alcance do médico de família que, como em todos os grandes problemas de Saúde Pública, tem aqui um papel importante. O médico de família, médico uro-ginecologista ou médico urologista pode, nesta fase, orientar para terapêutica oral (remédios) e fisioterapia. Os casos mais graves têm indicação para cirurgia.

Fisioterapia na incontinência urinária:

Inicialmente avalia-se:
– Queixa e duração dos sintomas;
– Tipo de sintomas;
– Tempo de aparecimento dos sintomas;
– Situações em que ocorre a perda (Esforço ou urgência);
– Idade da continência (controlo da micção);- Factor desencadeante;
– Factores que melhoram e que pioram os sintomas;- Status hormonal;
– Se há relacionamento do sintoma com algum evento como parto normal ou alguma cirurgia ginecológica;
– Hábitos intestinais: número de evacuações por semana/ período de tempo para evacuar;
– Hábitos de vida (tabaco, álcool, alimentação, obesidade);
– Medicações.

Aqui o importante será ajudar o paciente a descobrir que hábitos de vida pode alterar para que a sua situação melhore!

Após a conversa inicial segue-se o exame físico:

Abdominal
– Estado da Pele;
– Cicatrizes/Aderências;
– Estrias;
– Zonas Dolorosas;
– Hérnias.

Pavimento Pélvico
– Mucosa;
– Presença de irritação local, corrimentos, escorições, micoses, cicatrizes, epsiotomias, varicosidades, abertura vulvar, distância ano-vulvar.

Palpação
– Tónus/contracção base da musculatura perineal através da palpação das paredes vaginais;
– Capacidade de realizar contracção voluntária;
– Tónus da musculatura glútea, abdominal e adutora;
– Alterações de sensibilidade.

Relativamente aos exercícios para o pavimento pélvico:
– Quando os MPP estão fracos, pode ser necessário praticar contracções isoladas dos mesmos, progredindo com a adição de movimentos assim que a força e o controlo tenham melhorado;
– O programa de exercícios deverá incluir a activação das fibras lentas e rápidas para garantir que sejam trabalhados os componentes de força muscular rápida e de endurance (contração mantida por longos períodos de tempo);
– Poderá ser necessária a ajuda de aparelhos electrónicos ou de feedback. Há que ter em conta que menos de 30% dos indivíduos não é capaz de contrair o períneo quando tal lhes é pedido verbalmente, apenas 49% aumenta a pressão de encerramento da uretra durante a contracção dos MPP e 25% apenas faz força (bienvenuti et al 1967, Bo e tal 1988, Hesse et al 1990, Burnp et al 1991). Assim, os comandos verbais poderão não ser suficientes pelo que o fisioterapeuta poderá recorrer a comandos visuais, aparelhos de electro-estimulação, biofeedback ou palpação.

A Mães&Filhos® possui um equipamento de eletro-estimulação e de biofeedback de modo a ir de encontro à evolução do paciente. Todas estas estratégias dão um feedback excelente e fornecem uma medida de progresso.